segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Conta-Quases

Tive, desde que me lembro
Uma vida desenhada em quases
Quase fui judia
Quase fui Roxênia
Quase nasci em outro estado
Quase morri
         Isto, na verdade, mais de uma vez
Quase fui médica
Quase fui poeta
Quase desisti, quase fui à um profeta
Quase parei de fumar, quase amei
Quase fui feliz
Quase escrevi sobre mim
          E desta vez escrevi
Quem me dera, agora, eu quase seja triste
          Ou por fim, desta vez seja feliz
Entre todos esses quases, quase esqueci da vida, me afastei de tudo que era caro,
me neguei o prazer do papel e da tinta. Talvez o que me reste, ao fim do caminho
obscuro, recordar que um passo em falso, se camufla no compasso, e abraçar a loucura,
os riscos, para talvez reencontrar os risos, pois sempre tenho comigo que quem quase viveu,
nada deixa ao partir, e quem quase tentou abraçou o fracasso sem possibilidade de conseguir.

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