Tive, desde que me lembro
Uma vida desenhada em quases
Quase fui judia
Quase fui Roxênia
Quase nasci em outro estado
Quase morri
Isto, na verdade, mais de uma vez
Quase fui médica
Quase fui poeta
Quase desisti, quase fui à um profeta
Quase parei de fumar, quase amei
Quase fui feliz
Quase escrevi sobre mim
E desta vez escrevi
Quem me dera, agora, eu quase seja triste
Ou por fim, desta vez seja feliz
Entre todos esses quases, quase esqueci da vida, me afastei de tudo que era caro,
me neguei o prazer do papel e da tinta. Talvez o que me reste, ao fim do caminho
obscuro, recordar que um passo em falso, se camufla no compasso, e abraçar a loucura,
os riscos, para talvez reencontrar os risos, pois sempre tenho comigo que quem quase viveu,
nada deixa ao partir, e quem quase tentou abraçou o fracasso sem possibilidade de conseguir.
segunda-feira, 1 de novembro de 2021
Conta-Quases
quarta-feira, 31 de março de 2021
Recordo que existiu uma época em que costumava desenhar.
Meu último desenho, esgotei o tinteiro, e ficou assim, não terminado
Como você
E com o passar dos anos, as folhas soltas, repletas de sonhos no formato de rabiscos, foram se desfazendoComo eu
E assim como este texto, estes contos que terminam no ar, inacabados, tudo permanece assim, sutil, intrigante e incompleto
Como nós
quarta-feira, 24 de março de 2021
Já me chamaram de distraído, avoado, atrapalhado, engraçado, impulsivo, inconsequente e insensível. Todos estavam certos. Quase. Não sou insensível. Escrevo no caderno da minha primeira namorada, guardado e rabiscado por quase duas décadas, com a caneta deixada por um amigo querido, ouvindo músicas que me lembram do que não vivi por todos os outros fatores, tomando uma taça caótica preenchida de recordações, de gosto avinagrado, engolindo anseios e arrependimentos, aqueles que não tenho.
Pensando agora, será que sou impulsivo? Ou sou premeditadamente impulsivo?
Transbordo, porém transbordo pelas beiradas, enquanto no centro fico inerte, parado, pútrido e repleto de musgo.
Transbordo de forma calculada, se minto para mim, imagina pra você meu bem.
Se acredito na maior parte do tempo, permanece sendo uma mentira?
Se me vissem através do espelho, seria uma criatura sentimental e egoísta, um cacto que fere para não ser tocado, mas preciso dessas pessoas em minha vida. Dos sorrisos chegando aos olhos, das vozes, cheiros, a presença. Mesmo que nunca tomem conhecimento disso.
Quantas vezes senti a felicidade escapar por entre meus dedos, como alguém que tenta pegar algo sem ser tocado.
E assim termina o texto.
Se continuar, vai ser outro, dentre tantos, que não cumpriu seu objetivo.
Texto não postado, 2016
Dizem que a felicidade não tem cor
Mas qual seria a cor da felicidade
Senão a cor do amor?
E o amor sim tem tonalidade, retoque, toque, forma e cheiro.
Tem gosto
Teu rosto
É o meu lugar inteiro
Tem a cor das palmeiras
Onde canta o sabiá
Mas o poeta aqui
Não aprendeu a gorjear
Tem a cor das florestas
Destes campos com mais flores
Mas depois do teu sorriso
Não trouxeram mais amores
E este mar que estava glauco
Fez meu coração em pedaços