Já me chamaram de distraído, avoado, atrapalhado, engraçado, impulsivo, inconsequente e insensível. Todos estavam certos. Quase. Não sou insensível. Escrevo no caderno da minha primeira namorada, guardado e rabiscado por quase duas décadas, com a caneta deixada por um amigo querido, ouvindo músicas que me lembram do que não vivi por todos os outros fatores, tomando uma taça caótica preenchida de recordações, de gosto avinagrado, engolindo anseios e arrependimentos, aqueles que não tenho.
Pensando agora, será que sou impulsivo? Ou sou premeditadamente impulsivo?
Transbordo, porém transbordo pelas beiradas, enquanto no centro fico inerte, parado, pútrido e repleto de musgo.
Transbordo de forma calculada, se minto para mim, imagina pra você meu bem.
Se acredito na maior parte do tempo, permanece sendo uma mentira?
Se me vissem através do espelho, seria uma criatura sentimental e egoísta, um cacto que fere para não ser tocado, mas preciso dessas pessoas em minha vida. Dos sorrisos chegando aos olhos, das vozes, cheiros, a presença. Mesmo que nunca tomem conhecimento disso.
Quantas vezes senti a felicidade escapar por entre meus dedos, como alguém que tenta pegar algo sem ser tocado.
E assim termina o texto.
Se continuar, vai ser outro, dentre tantos, que não cumpriu seu objetivo.